No mundo dos contratos milionários estabelecidos com o poder público, existem aquelas pessoas com papel essencial no sistema de remuneração sub-reptícia. Transpondo para a linguagem popular, é aquela grana “por debaixo dos panos” que este intrépido agente das falcatruas leva a cidadãos com importantes cargos no país.
A coisa está tão escancarada que chega a ser constrangedor ouvir as piadas que circulam, inclusive nos bastidores da política. Numa rodinha de prefeitos, deputados e vereadores um deles larga essa: “e aí Campeão?” E logo todos dão uma discreta risada.
Chegou-se a um ponto que a sem-vergonhice é tratada de forma natural, o que é inaceitável. Ora, mandatários agindo como funcionários graúdos de empreiteiras, parecendo ter procuração para pleitear recursos em obras mal fiscalizadas, são um escárnio à cidadania.
E o Campeão está circulando por aí. Quando seu nome é falado gera um alívio dos negociadores e operadores, pois logo vem uma euforia, risos e parece que são velhos amigos dentro destes esquemas.
Grande parte da imprensa evita abordar este assunto. Os grandes veículos lançam, de forma limitada, algumas escaramuças, mas não há um combate frontal, o que seria plenamente aceitável. Então há a sensação de uma nojenta impunidade.
Todo este cenário de corrupção, desmandos, privilégios e favoritismos merece ser analisado antropologicamente. Nas grandes cidades, em meio ao turbilhão de milhões de pessoas, muitos negócios adquirem um caráter nebuloso. Podemos morar num edifício e lá termos como vizinhas dezenas de pessoas cuja ocupação desconhecemos. Firmas podem ter escritórios discretos apenas para usar em operações ilegais, escapando de qualquer controle. Neste ambiente propício o Campeão faz e acontece, gravitando do setor privado ao público, levando informações privilegiadas a seus parceiros e, principalmente, obtendo recursos para grupos de seu interesse.
Ao descer do 20º andar do arranha-céu onde trabalha, o Campeão pega o seu carro importado e circula como mais um executivo entre milhares da sua cidade. Usam os mesmos tipos de gravata e tomam o mesmo uísque. No fim da tarde vão para suas residências, num bairro de classe alta, onde escondem nos arquivos do seu computador informações que a sociedade dificilmente conhecerá algum dia. Neste mundo de interesses e disputas empresarias, cercado pela mais baixa política, o Campeão obtém vitórias atrás de vitórias, pois as circunstâncias conspiram a seu favor. Não é para menos que seu apelido é Campeão.
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